12 de set de 2008

FABRICANDO DESTINOS


Alguém se levantou às oito da manhã do dia dezenove de novembro, bocejou longamente e foi direto para o banheiro. Ao se olhar no acusador ele constatou que não havia necessidade de fazer a barba, também viu uma pequena espinha no alto da testa, quase onde nasciam seus cabelos escuros, mas nada grave. Estava ligeiramente atrasado, pelo menos era isso que indicava seu algoz, marcando oito horas e oito minutos. Rapidamente ele vestiu suas decências, abotoou seu emprego, pôs suas visões nos olhos, recolocou o noivado no anelar e saiu.
Ao mesmo tempo, do outro lado da cidade, alguém guiava na auto-estrada. Cabelo impecável, unhas bem feitas e pintadas de vermelho, de suas orelhas pendiam pequenos e belos satélites, naquela manhã ela usava seu espírito preto, leve e sensual, o que mais gostava. Quando estava na metade do caminho, ela ouviu o imortal tocar, sem pestanejar inclinou-se para trás e, com uma das mãos, pegou sua vida no banco traseiro, abriu-a, retirou o aparelho e atendeu a inconveniente ligação. Era seu chefe, precisavam urgentemente dela na cruz, automaticamente ela acelerou.
As oito e quinze do dia dezenove de novembro, um jovem apressado atravessava a rua em direção ao seu novo emprego, e uma mulher preocupada voava baixo pela auto-estrada. Ele girava o noivado no dedo, costumava fazer isso quando estava nervoso, ela ouvia o imortal tocar pela segunda vez, precisava atender... Um instante, um acidente, o algoz do jovem havia feito seu trabalho, seus ponteiros pararam às oito dezesseis, a mulher acabou morrendo pela cruz. No asfalto morno da estrada restaram, lado a lado, um noivado partido e uma vida rasgada.

Um comentário:

Rodolfo Malheiros disse...

WOW. achei genial o enredo, o desfecho e a troca de palavras.
chego a sentir uma certa inveja. originalidade é coisa a se cavar fundo pra encontrar.