25 de set de 2008

VETOR


Quando acordo já sei para onde vou, sei o motivo, conheço o caminho e as pessoas que lá estarão... Mas não sei se é realmente necessário ir, se os motivos que me movem são de fato importantes, nem consigo imaginar o que poderia acontecer se eu não fosse para onde sempre vou. Reconheço a voz do outro lado da linha, sei quem está falando, amigo de longa data... Infelizmente não entendo o que ele está dizendo, o sentido da mensagem foge à minha compreensão, não estou conversando mais com o amigo de ontem, é ele quem está falando comigo, e é hoje.
Já deveria ser amanhã, para eu ser tão velho quanto dizem que já sou, eu sei de tudo isso, não sou louco... Mas continua sendo ontem, não consigo provar que já deixei de ser jovem, não me importaria de fingir, pelo menos não receberia mais doses cavalares de drogas pelo ouvido. Gostaria de ter uma companhia para caminhar, eu sei que cruzar os dedos não faz alguém aparecer, sei também que cada pessoa segue uma trilha própria em um confuso labirinto... Dizem que há um labirinto, não vejo nenhuma divisória ou parede, por isso fico admirando os passos alheios e esqueço de andar.
Dizem que sou alguém, pois tenho um nome, documentos e um rosto... Sou alguém que sabe fazer certas coisas, o que sei fazer não me faz ser alguém, mas já vi reconhecerem alguém pelo que sabia fazer, se alguém não sabe fazer nada dizem que nem chega a ser alguém, eu sei. Quem sabe eu seja um vetor, uma forma de vida que carrega e transmite um agente infectante. Minha psicóloga, os sociólogos da cidade e os filósofos do mundo não sabem, ainda, se o que estou disseminando é benéfico, inútil ou perigoso, não souberam me dizer.

12 de set de 2008

FABRICANDO DESTINOS


Alguém se levantou às oito da manhã do dia dezenove de novembro, bocejou longamente e foi direto para o banheiro. Ao se olhar no acusador ele constatou que não havia necessidade de fazer a barba, também viu uma pequena espinha no alto da testa, quase onde nasciam seus cabelos escuros, mas nada grave. Estava ligeiramente atrasado, pelo menos era isso que indicava seu algoz, marcando oito horas e oito minutos. Rapidamente ele vestiu suas decências, abotoou seu emprego, pôs suas visões nos olhos, recolocou o noivado no anelar e saiu.
Ao mesmo tempo, do outro lado da cidade, alguém guiava na auto-estrada. Cabelo impecável, unhas bem feitas e pintadas de vermelho, de suas orelhas pendiam pequenos e belos satélites, naquela manhã ela usava seu espírito preto, leve e sensual, o que mais gostava. Quando estava na metade do caminho, ela ouviu o imortal tocar, sem pestanejar inclinou-se para trás e, com uma das mãos, pegou sua vida no banco traseiro, abriu-a, retirou o aparelho e atendeu a inconveniente ligação. Era seu chefe, precisavam urgentemente dela na cruz, automaticamente ela acelerou.
As oito e quinze do dia dezenove de novembro, um jovem apressado atravessava a rua em direção ao seu novo emprego, e uma mulher preocupada voava baixo pela auto-estrada. Ele girava o noivado no dedo, costumava fazer isso quando estava nervoso, ela ouvia o imortal tocar pela segunda vez, precisava atender... Um instante, um acidente, o algoz do jovem havia feito seu trabalho, seus ponteiros pararam às oito dezesseis, a mulher acabou morrendo pela cruz. No asfalto morno da estrada restaram, lado a lado, um noivado partido e uma vida rasgada.