26 de mar de 2008

O SER E O SER

Eu vi corpos artificiais e vazios receberem um punhado de órgãos e serem animados com descargas elétricas. Eles conseguiam ficar de pé, se movimentavam, eram capazes de se manter vivos, respiravam, comiam, dormiam, falavam, escutavam, funcionavam perfeitamente bem. Seus criadores não tiravam os olhos dos gráficos que coloriam as telas dos computadores, conseguiam monitorar o funcionamento de suas criaturas sem olhar para elas, baseavam-se nos números fornecidos pelos programas.

Pouco tempo depois os vi espalhados pelas ruas, em meio às pessoas, caminhavam pelas calçadas, dirigiam automóveis, trabalhavam, estudavam. Menos de duas décadas depois já era difícil saber quem era natural e quem havia saído de um laboratório. Não se sabia exatamente o motivo desse fenômeno, alguns achavam que a capacidade de aprendizado das criaturas desenvolveu-se rápido, outros, dentre eles eu, diziam que a raça humana havia se tornado apática e funcional, assemelhando-se às criaturas.

Algumas pessoas afirmavam serem capazes de notar a diferença entre humanos naturais e humanos artificiais. Elas diziam que os humanos naturais possuíam algo no olhar, uma espécie de brilho, que ia além da vida biológica. Até então, a única maneira de saber quem era natural se dava por meio de testes que analisavam a degradação do tecido cerebral. Pessoas apontadas por esses “sensitivos” como sendo naturais foram submetidas aos testes, algumas delas foram diagnosticadas como artificiais. A maioria acreditou na ciência, eu fui um dos que acreditou nas pessoas, fui acusado de ser artificial e jogado numa cela, como sendo uma falha.

13 de mar de 2008

TEMPESTADES

Continue caçando suas tempestades, enfrente os raios, sinta a chuva, olhe bem para as nuvens escuras que pairam sobre você. Elas não duram para sempre, são apenas alguns instantes de anormalidade, é o momento em que não faz tempo bom, é a chance de escapar do trivial. Torne-se um louco, desenvolva uma surdez, não ouça o que dizem, não faça o que fazem. Eles fogem, você enfrenta, eles ignoram, você quer saber, eles permanecem secos, você se encharca, eles não morrem, você vive.

Pise na lua, caminhe no ar, voe pelas estrelas. Vista o traje de astronauta, faça a contagem regressiva do foguete, prepare-se para aterrissar. Construa o seu mundo, este não basta, ele não está certo, não é um lugar justo. Você é o lunático, um sonhador desatento, alguém que não tem chance nessa realidade, precisa se salvar! Continue sendo o que sempre foi, não fuja do abrigo, não esqueça do autismo, conteste o que vê e ouve, é sua única chance.

Benjamin Franklin e sua pipa enfrentaram a tempestade, desafiaram as ameaçadoras nuvens negras, domaram os raios. Santos Dumont embarcou em seu 14 bis e provou que o homem podia voar. A bordo do Sputnik, Yuri Gagarin foi além do horizonte, viajou pelas estrelas, o céu deixou de ser o limite. No dia vinte de julho de 1969, Neil Armstrong anunciou estar caminhando pela humanidade, neste momento ele pisava no solo arenoso da Lua pela primeira vez. Estes homens existiram no mundo de qualquer um, enfrentaram as tempestades, promoveram as mudanças no tempo.

6 de mar de 2008

VISITANDO O INTERIOR

Passava das duas da manhã quando bateram à porta da casa número vinte e dois da Rua Marcelo A. de Moura.

- Nossa! Eu jamais poderia imaginar que você me faria uma visita a essa hora da madrugada! Que ótima surpresa! Entre.

- Estava passando por aqui e, como tinha certeza de que estaria acordado, resolvi dar uma passada, espero não estar incomodando...

- Claro que não... Mas sente-se, vou pegar um café.

- Você andou mudando algumas coisas por aqui não foi? Olha, com sinceridade, achei um tanto esquisita essa nova decoração.

- Pronto, aqui está o café... Não mudei nada, está tudo exatamente mesmo lugar. A última vez que você esteve aqui era dia e estava sentada em outro lugar, quem sabe esses fatores devem ter te dado essa falsa impressão.

- Mas está muito diferente mesmo, sem brincadeira!

- Impressão sua... Como está o tempo? Muito frio lá fora?

- Não, está bem agradável.

- Ah! Eu não costumo sair muito de casa, por isso sempre acho que faz frio lá fora...

- Você deveria sair mais.

- Quem sabe... Mas eu já desisti, lá fora não parece ter nada interessante, aqui dentro posso fazer o que quiser, criar coisas do meu interesse.

- Sei... Nesses papéis aí?

- Isso mesmo, com a ajuda de uma caneta.

- Eu não entendo! Bom, só passei para ver se você estava bem e encontrei uma nova decoração e você dizendo que não mudou nada de lugar... Obrigada pelo café.

- Está tudo no mesmo lugar, você viu a sala de um ângulo diferente e com outra iluminação, sei que pode parecer difícil de assimilar isso, mas continua tudo igual.

- Você mudou... Bem, boa noite.

- Para você também, volte sempre!

Passava das nove da manhã quando abriram a porta da casa de número vinte e dois da Rua Marcelo A. de Moura.