17 de jun de 2008

O BONECO

O trem já estava na metade do caminho, havia passado pelas mais belas paisagens e lutado com impiedosas tempestades. A vida da moça, que estava sentada displicentemente próxima à janela do quinto vagão, não havia andado tanto quanto a locomotiva. Ela mudava constantemente as pernas esguias de posição, suas lembranças misturavam-se com seus e planos, a morte chegava, era posta para fora e dava lugar ao desejo de mudar de cidade, sorrisos espontâneos eram distribuídos à esmo, sendo rapidamente substituídos por lábios apertados. Era quase possível perceber sua fragilidade e incerteza escorrendo pelos finos fios dos cabelos claros que se ajeitavam naturalmente.
Quem sabe, se estivesse em um ônibus, não estaria sozinha, se parasse de refletir tanto, não perderia tempo com tais suposições. O trem se aproximava de mais uma estação, e ela já havia perdido a conta de quantas vezes havia parado, nem sabia mais se isso era bom ou ruim, desistira de pensar nisso também. Há poucos metros da plataforma de embarque da estação, a jovem vislumbrou uma aglomeração de pessoas. Ajeitou-se melhor no assento a fim de descobrir qual era o motivo de tal reunião atípica. Aos poucos, conseguiu ver que, no meio da multidão, a maioria crianças, um senhor dava vida a um amável boneco.
A moça ficou maravilhada com a cena, as mãos e os dedos do bonequeiro se moviam de uma forma muito esquisita, torta, mas o pequeno boneco parecia estar vivo e dançava graciosamente para a platéia. O espetáculo parecia ter sido preparado especialmente para aquele momento, como se fosse imprescindível para dissipar a leve, porém incômoda, angústia que ela trazia no peito. A apresentação parecia estar longe do fim e o trem, que ela nem notara ter parado, voltava a movimentar-se para continuar a viagem. O artista percebeu que os olhos castanhos da jovem estavam vidrados nos movimentos do homenzinho de madeira que conduzia, e resolveu homenageá-la, mexeu os fios que segurava com delicadeza, e seu boneco acenou tristemente para ela.


Ela sorriu e teve a sensação de que sua trajetória estava sendo escrita pela mão inconstante de um escritor adormecido e distante...

3 de jun de 2008

A PEÇA

As cortinas se abriram, o ator estava visivelmente nervoso, mesmo sendo excelente na arte de interpretar e já ter perdido a conta de quantas vezes fora aplaudido de pé. Era a mesma peça, o mesmo personagem e a platéia não havia mudado muito, apenas uma ou duas pessoas novas, sem rosto. O palco parecia ondular sob seus pés, causando-lhe um pequeno desconforto, mas ele manteve-se firme, fixou o olhar na multidão que assomava a sua frente e reuniu forças para encarnar, mais uma vez, o inesquecível Rei de Copas. Seus gestos exalavam soberba e tranqüilidade, e com as famosas risadas histéricas, alternadas com crises agudas de tristeza, o Rei de Copas, como sempre, foi cativando aos poucos seu fiel público.

Na primeira fila, sentada exatamente no mesmo lugar, estava a bela escultora de cabelos negros e brilhantes com quem o ator sempre quis conversar, mas jamais conseguira. Logo ao lado da artista estava uma mulher de olhar distante, seus traços transmitiam uma imensa fragilidade, dava a impressão de ser a mãe de todas as pessoas do mundo. Uma das cadeiras estava vazia, era muito estranho haver um lugar sobrando na primeira fila de tão grandioso espetáculo, mas estava lá, um imenso vazio. As demais poltronas do lugar estavam todas ocupadas por pessoas bem vestidas, mas que não possuíam face, o ator não se importava com tal detalhe, desde que ouvisse o som confortante dos aplausos, com os quais estava tão acostumado.

O Rei de Copas condenou outro camponês à forca e esboçou seu último sorriso de satisfação, e, após um breve silêncio, o público rompeu em aplausos. Era possível ver nos olhos do ator o êxtase, a sensação de ter sido perfeito, de ter experimentado a melhor droga que poderia existir, estavam quase todos pé, produzindo aquela explosão sonora de que ecoava pela gigantesca sala... Quase todos, em meio ao seu torpor, o ator notou que havia um homem naquele lugar vazio, e o espectador que lá estava lançava-lhe um olhar de desprezo. Como que por encanto a platéia toda sumiu, as palmas cessaram, o silêncio e a solidão retornaram, aquele homem que não aplaudiu tinha o rosto idêntico ao do ator, que caiu de joelhos, fracassado, no meio do palco.