3 de mar. de 2010

OUTRO, EU


Já vou deixando claro que, dessa vez, não sou eu o escritor. Outro está escolhendo as palavras, distribuindo vírgulas, atirando pontos, semeando amizade entre as frases, assim elas concordam, apesar de suas gritantes diferenças. Fica bem melhor escrito, mais claro, reto e direto, algo que deve ser útil em alguma profissão. Não sou eu mesmo, decidi não ser, tive vontade de mudar e o fiz. Foi fácil, neguei um e outro valor, resisti aos ataques do ego e barrei a vontade de ser singular. Mente quem diz que é difícil abandonar-se, pois consegui em pouco tempo, bastaram algumas observações do meio social e uma dose de força de vontade.
Sempre quis vestir uma porção de coisas que via os outros vestindo. Agora visto tudo isso! Um dos meus desejos era poder criticar os enganadores, esses atores da vida real, e depois pagar para ver atores de verdade na telona, sem pensar na ironia do ato. Pois agora faço sem problemas! Era desconcertante ficar pensando, raciocinando, concluindo e nada fazendo. Passado! Hoje é só ação! Perdi tempo sustentando ideais e clamando por uma indubitável ética. Hoje apenas vivo! Me sinto bem assim, joguei para o alto minhas angústias, não me preocupo mais com problemas alheios: "O que é teu não é meu, o que é meu não foi tu que deu", essa é a máxima!
Promovi uma mudança tão boa que até o "eu" não uso mais. Sempre vi esse tal de "eu" com desconfiança, encarava ele como um receptáculo, onde estavam entalhados meus traços físicos e de personalidade. Vazio, esse recipiente foi jogado no mundo, despertando todo o tipo de reação e reagindo de acordo com sua capacidade de assimilação e adaptação. Assim se desenvolve esse "eu", e o meu, francamente, veio com sérios defeitos. Era difícil lidar com ele, parecia não compreender as mensagens, devia ser de um modelo muito antigo o maldito. Felizmente descobri como me livrar do "eu" sem maiores problemas. O único desconforto que sinto é o de não saber quem sou às vezes... Quando isso acontece, me concentro em ser outro, e pronto!

26 de jan. de 2010

SANGRAR


Um vento gelado forma marolas em uma poça de sangue que colore de forma funesta uma gasta calçada. Um homem estivera sentado naquele local por alguns instantes, tempo suficiente para deixar seu rastro, sem saber que o fazia. Ele nem mesmo havia percebido que sangrava, só sentia uma dor incômoda, constante, da qual não conseguia se livrar. Sua tentativa de aplacar tal dor foi o que acabou levando-o até aquele lugar, pois decidiu caminhar um pouco, a fim de espairecer. Na verdade queria esquecer uma porção de coisas, mesmo sabendo que não atingiria tal objetivo, pelo menos não naquela mesma tarde, quem sabe nunca conseguiria tal façanha, era nisso que pensava, era por isso que sangrava.
É possível ver diversas gotículas vermelhas espalhadas pela ruela que conduz para fora do simpático parque da cidade. A rua estreita e repleta de volumosas árvores foi percorrida às pressas pelo homem ferido. Ele sentiu-se ameaçado pelas pessoas que viu andando no parque, podiam querer interrogá-lo, perguntar acerca de suas roupas desajeitadas e amassadas, ou da palidez do rosto. Concluiu que fora uma péssima idéia ter ido até lá, mesmo tendo visto os patos nadando tranquilamente no lago, ou os pássaros saindo furtivamente do interior de vistosos arbustos. Aquelas cenas simples e corriqueiras acalmaram seu espírito e até abrandaram levemente seu sofrimento, mas bastou ver novamente os inquisidores olhos do ser humano para que a dor aumentasse.
Uma moça de semblante triste observa, intrigada, algumas manchas vermelhas em sua camisa branca. Algumas horas atrás, o homem machucado discutiu com essa mulher, que agora vê o sangue dele impregnado em sua roupa. Ele sentiu uma punhalada quando a ouviu dizer que não era culpada pelo ferimento aberto em seu peito. O homem tinha certeza, não havia ferida alguma antes disso, tudo acontecera naquele instante. Ao perceber isso, o medo tomou conta, e ele saiu correndo, sem rumo, estava confuso, pois fugia do amor de sua vida. Sua amada permaneceu imóvel, com os braços suspensos no ar, como se ainda abraçasse aquele homem ferido que se distanciava.

17 de nov. de 2009

O HOMEM DO CABELO CURTO


Há um homem que nunca deixou o cabelo crescer. Sendo habitante do meu imaginário, ele me permite transcrever seus pensamentos acerca de madeixas longas: "Isso é coisa de baderneiros, relaxados, gente sem regras - Ele não se incomoda quando incluo a categoria messias em tais distinções - vagabundos e preguiçosos".
Vaidoso, ele mantém o cabelo sempre bem aparado, pois tem consciência que um desalinhamento capilar causaria má impressão. Este homem jamais se apresentaria sem seu paletó devidamente abotoado, sapatos de couro marrom brilhosos, calças sociais impecáveis e, claro, com os cabelos curtos cuidadosamente penteados para o lado direito, mesmo que apenas eu possa vê-lo. Símbolo de distinção, a etiqueta em pessoa, este é o homem de cabelo curto.
Eu já disse a ele que não ligo para tais arrumações, mas não adianta, sou ignorado e forçado a contemplar sua obsessão pela boa aparência. Como pode alguém não ter vontade de deixar o cabelo crescer uma vez na vida? Em qual calabouço tal pessoa teria trancado sua curiosidade? Sempre que me faço essas perguntas o homem do cabelo curto sai a procura de uma tesoura... Toda vez que lanço tais questões ao homem ele corta cuidadosamente alguns fios, sem dizer nenhuma palavra.
Ele amputa suas possibilidades sem pestanejar, deixando-as cair mansamente, sem jamais dirigir um olhar para o chão, onde elas vão se amontando há muito tempo. "Para que mudar algo correto?", me pergunta ele... "Me sinto bem estando nos conformes", esclarece ele. Eu nunca entendi o homem do cabelo curto, mesmo conhecendo-o muito bem.