17 de nov de 2009

O HOMEM DO CABELO CURTO


Há um homem que nunca deixou o cabelo crescer. Sendo habitante do meu imaginário, ele me permite transcrever seus pensamentos acerca de madeixas longas: "Isso é coisa de baderneiros, relaxados, gente sem regras - Ele não se incomoda quando incluo a categoria messias em tais distinções - vagabundos e preguiçosos".
Vaidoso, ele mantém o cabelo sempre bem aparado, pois tem consciência que um desalinhamento capilar causaria má impressão. Este homem jamais se apresentaria sem seu paletó devidamente abotoado, sapatos de couro marrom brilhosos, calças sociais impecáveis e, claro, com os cabelos curtos cuidadosamente penteados para o lado direito, mesmo que apenas eu possa vê-lo. Símbolo de distinção, a etiqueta em pessoa, este é o homem de cabelo curto.
Eu já disse a ele que não ligo para tais arrumações, mas não adianta, sou ignorado e forçado a contemplar sua obsessão pela boa aparência. Como pode alguém não ter vontade de deixar o cabelo crescer uma vez na vida? Em qual calabouço tal pessoa teria trancado sua curiosidade? Sempre que me faço essas perguntas o homem do cabelo curto sai a procura de uma tesoura... Toda vez que lanço tais questões ao homem ele corta cuidadosamente alguns fios, sem dizer nenhuma palavra.
Ele amputa suas possibilidades sem pestanejar, deixando-as cair mansamente, sem jamais dirigir um olhar para o chão, onde elas vão se amontando há muito tempo. "Para que mudar algo correto?", me pergunta ele... "Me sinto bem estando nos conformes", esclarece ele. Eu nunca entendi o homem do cabelo curto, mesmo conhecendo-o muito bem.

4 comentários:

Dai De Gasperi disse...

Parabéns!
Vamos lá!

Alexandre disse...

O medo do risco!
O medo do riso!
O medo do preconceito e da exclusão!

ótimo texto! Gostei da reflexão.

Forte abraço!

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

A política deforma corpos. A linguagem deforma mentes. Mas tanto política quanto linguagem são caracteres de uma mesma estrutura que nos habita desde o primeiro arfar de pulmões. Quebrar a rotina sacra dos sossegados subúrbios dos nossos apartamentos é difícil. Quanto mais pelo fato de termos de nos adaptar ao lixo consumista de cada dia para ganhar alguns trocados e ter pão e carne na geladeira. Mas o saber, esse sim, ao revés do saber-poder, mas sim o saber-sonho, pode transformar essas realizações irrealizáveis em arte e somente então despontar no desassossego que não perpetra apenas a angústia, mas sim a força da criação. E é isso que vejo em sua escrita elegante e prenhe de futuros, a qual, para além da reflexão, promove a flexão de neurônios e palpitações tão acostumadas com literaturas feitas de lugares comuns. Com admiração, um abraço do Eduardo Matzembacher Frizzo (do blog http://insufilme.blogspot.com/). P.S.: e já tem novo post lá ma minha casa internáutica; os processos e as lides acadêmicas deram uma trégua; logo, resolvi tornar à literatura, aquilo que realmente me é.

Biba disse...

Minha órbita anda devagar pois só em 2010 leio o texto sobre o homem do cabelo curto. Adorei! Sei que você gosta de comentários mais profundos, mas me contento em apenas gostar. Por hoje, pelo menos.

Beijo
Carpe Diem!!